domingo, 8 de março de 2009

O (verdadeiro) Dia Internacional da Mulher


Nada como aproveitar uma data comemorativa pra fazer a reativação anual do blog. Sim, bem como as mulheres tem seu o Dia Internacional, esse blog também tem seus dias anuais de atualização. Parte por relaxamento, parte por falta de vontade deste humilde aspirante a autor.


Então, vamos lá. Na história conhecida a comemoração tem essa data devido a um protesto (leia-se greve) de trabalhadoras de indústrias têxteis em Nova Iorque. Nesse protesto por melhores salários e condições de trabalho, morreram queimadas 129 mulheres. Isso teria ocorrido em 1857. A verdade é que não se tem certeza sequer da veracidade desse acontecimento, ou das duas costureiras americanas mortas em 1910 e 1911. Datas, fatos, locais, nada é historicamente confirmado. Faço uso de um eufemismo: por “nada é historicamente confirmado”, entenda-se que são fatos contestados, ou ainda, inexistentes.


A verdade, ou sua melhor versão, talvez esteja descrita no esquecido livro da autora canadense Renée Côté, “La Journée internationale des femmes – lês vrais faits et les vrais dates des mystérieuses origenes du 8 mars jusqu’ici embrouillées: la clef des énigmes, la verité historique.”. Ta, calma. Sei que estamos em um país de língua portuguesa: “A revista feminina: os verdadeiros fatos e datas das misteriosas origens do 8 de março, até hoje confusas, maquiadas e esquecidas”. O livro traz as origens comunistas do 8 de março. A instituição da data está diretamente ligada aos movimentos de esquerda dos anos 60 à 80. Assim fica claro o porquê de o livro ter sido esquecido, como coloquei antes. Desmascarar uma história triste destitui todo o orgulho emblemático de milhões, bilhões de mulheres, além de desmotivá-las a qualquer luta por mais igualdade.


O 8 de março de 1857 serviu pra encobrir outra greve, real e também proibida, ocorrida na Rússia de 1917, onde no meio da Primeira Grande Guerra, tecelãs e costureiras de Petrogrado iniciaram seus protestos no dia 15 de fevereiro do calendário russo, o que significava o nosso 8 de março. Sua luta era por pão e paz, algo muito mais essencial, caso pudéssemos fazer uma escala de necessidades humanas, do que “mais direitos e melhores salários”. Essa manifestação ficou conhecida como estopim da primeira fase da Revolução Russa, ou Revolução de Fevereiro.


Essa greve foi documentada nos escritos de Trotsky e de Alexandra Kollontai, membros do Comitê Central do Partido Operário Socialdemocrata Russo e ambos, depois, proscritos pelo stalinismo vencedor. Kollontai escreve: “O dia das operárias, 8 de Março, foi uma data memorável na história. Nesse dia as mulheres russas levantaram a tocha da revolução.


Logo entende-se que, em meio à Guerra Fria, a Rússia não poderia servir de pátria-mãe de heróis ou heroínas. O contexto do mundo naquela época jamais permitiria isso. A vitória do Vietnã sobre o maior exército do mundo, o Livro Vermelho, de Mao Tse Tung, a Revolução Cubana, servindo de base para toda a América Latina, são apenas alguns exemplos pra ilustrar o quanto o mundo estava conturbado na época. Não poderia se dar mais esse orgulho aos comunistas, de terem inventado o Dia Internacional da Mulher.


No mundo ocidental, capitalista, os Beatles, Woodstock, a descoberta da pílula (atrelada ao livro Revolução Sexual e à libertação da mulher), revoluções sociais, o poder negro e a luta contra a ditadura, somada à queima de sutiãs em praça pública fizeram cair no esquecimento o fato de que o Dia da Mulher, no começo do século XX, era uma conquista comunista. Já os países comunistas voltaram a comemorar a data após a Segunda Guerra, porém com o intuito de exaltar seus governos e sua ideologia, sem essa de brigar pela causa libertária feminina.


Com a necessidade de livrar o mundo das garras dos comunistas, a ONU reconheceu em 1975 o dia 8 de março como Dia Internacional da Mulher. Em 1977 a UNESCO adotou a data, como homenagem às 129 trabalhadoras valorosas que iam todos os dias ao bosque para cortar lenha, ou a estória das 129 operárias americanas indignadas, revoltadas, que colocaram a faca nos dentes e fizeram uma greve, jurando só terminá-la se fossem melhoradas suas condições de trabalho, ou se fossem queimadas vivas.


Dadas as informações, cada um acredita no Dia Internacional da Mulher que quiser, no romântico, ou no social. De qualquer forma, revolucionárias mulheres, uni-vos cada vez mais pelos seus direitos e por igualdade de tratamento com o sexo masculino.

3 comentários:

Rodrigo Dias disse...

A pergunta que tenho é o seguinte: pouco importa se é uma data comunista que os americanos mascararam ou não. Isso não vai mudar o fato de ainda vivermos no mais alto machismo e as mulheres continuam sendo violentadas, espancadas, e outras "adas" nessa vida.

Mas que dá nojo essa mania de "tudo o que é do comunismo não presta" dá nojo. Bela busca de informações. E cuidado: se o dia de atualização do blog for 8 de março, tu te fodeu, magrão. hehehe!

Abraço

P.s.: meu blog é www.etceteraetal.com

Felipe Nabinger disse...

Acho essa data, independente da origem, muito válida. Isso por que não é uma "data comercial". É uma data em que homenageamos nossas mães, esposas, namoradas e as mulheres em geral.

E dá uma comentada no http://frequencia-modulada.blogspot.com/

Abs.

André R. Finken Heinle disse...

"O único movimento feminista legítimo é o dos quadris"
Nelson Rodrigues

Hehehe, fora o machismo da citação, é engraçadíssima, rsrs...